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Quinta-feira, 09 de Fevereiro de 2006
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Panorama

Estado de espírito, um estado independente

Sílvio Ferreira Leite

Sei que muitos problemas espreitam nosso cotidiano como aves de mau agouro e tentam nos impedir de relaxar na solução. Sei que muitas contrariedades chegam sob as mais variadas formas e nos provocam insistentemente com suas garras ferinas. Mas sei também que precisamos ter um certo domínio da situação, livres de qualquer influência do caos, da irreverência dos fatos e das armações do destino.

Em casos de necessidade e desconforto, nossa defesa consiste em desenvolver o outro lado. Em vez de tentar uma luta insana contra o que nos desgasta, temos a opção de buscar fortalecimento na face oposta. Trata-se de uma estratégia que nos arranca do centro da questão e nos remete a um abrigo de onde podemos ver com menos parcialidade toda a efervescência que tende a enfraquecer nosso bom senso e nossa capacidade de discernir.

Enquanto estamos diretamente envolvidos em confrontos com a vida, ficamos cegos e surdos buscando em vão uma saída. Ela existe. No entanto, no ardor da batalha, poucas vezes conseguimos perceber as possibilidades que se apresentam. O tumulto que se estabelece envolve completamente o nosso pensar e invariavelmente partimos para a ação, na ânsia de querer resolver tudo, mas sem a devida clareza que um afastamento pode proporcionar.

É recomendável dar um tempo, aceitar uma trégua, sair das asas do furacão. Não se trata de uma fuga, mas de um novo posicionamento. Por enquanto, você não vai atacar mais, não é preciso, o combate acontece longe e você não está mais lá. Você apenas assiste ao espetáculo e pode ver de onde surgem as investidas e qual é a força do inimigo. Agora sim, você pode preparar a defesa.

Quando você se afasta, tudo muda. Você escapa do enredamento. Então, sua mente fica mais clara e objetiva. Antes, você só via uma parte, aquilo que estava muito perto de você, o elemento devorador. No momento em que você assume o outro lado, passa a ter uma visão global. Você consegue se resguardar e se fortalecer.

Falando assim, parece que estamos no alto de uma grande montanha observando o vale que contém o conflito. Até que essa imagem pode prevalecer, pois ela ilustra bem a situação. Em todo caso, é bom esclarecer que o refúgio seguro existe dentro da gente. Não é bem um lugar, mas um estado de espírito.

Para compreender melhor, vamos tomar a palavra 'estado' em outro sentido, como forma de governo. Assim, estado de espírito assume nova conotação. É como se existisse um país dentro de você. Um país tranqüilo e pacífico. Sim, seu país não quer saber de guerras. Seu país não quer saber de ameaças. Seu país quer ser auto-suficiente e produzir riquezas, cultura e arte.

Para que tudo isso aconteça, ele precisa de um presidente, um primeiro-ministro, ou seja, um administrador que saiba torná-lo independente. Pois é, chegamos ao óbvio. Essa pessoa é você. E você deve tornar seu estado de espírito um estado independente, não importa a tempestade que caia além de suas fronteiras.

SILVIO FERREIRA LEITE, de São José dos Campos, escreve neste espaço às quintas-feiras

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