Alma de tropeiro
Aos 80 anos e com agenda de shows recheada, o músico Zé Mira é um exemplo de amor e dedicação à cultura caipira
Fernanda Guerra
São José dos Campos
"Dá licença pra nóis, sinhô, sinhá. Nós queremos chegá, sinhô, sinhá". O Moçambique soa doce na voz de Zé Mira. Considerado o último tropeiro vivo, José Alves de Mira, 80 anos, é um verdadeiro ícone da cultura caipira.
Nascido em Cristina, no sul de Minas Gerais, Zé Mira mora em Jambeiro desde 1948, quando veio para o Estado de São Paulo atrás de escolas e oportunidades para os filhos que ainda iriam nascer.
Hoje, pai de 9 filhos, avô de 17 netos e com 5 bisnetos, o tropeiro está à frente da casa de cultura que leva seu nome, em São José dos Campos, onde luta para preservar as danças e a música do homem da terra, como o jongo, moçambique, congada, cateretê e catira.
Dono de uma fala mansa, riso aberto e conversa fácil, Zé Mira concedeu entrevista ao ValeParaibano, em que conta um pouco de sua vida. O resultado dessa prosa, você lê a seguir.
O que é ser caipira?
Zé Mira - Ah, ser caipira é que nem no tempo de "dantes" que cada um tinha sua casa, cada um se cuidava, cada um vestia aquilo que Deus dava, né. E era o trabalho, era a amizade. O homem caipira que sabe respeitar o caipirismo dele vive bem.
Conte um fato curioso que aconteceu em sua vida.
Zé Mira - Tem um que "peguemos" a tropa pra sair e quando foi de madrugada, vimos que "peguemos" o burro errado. "Peguemos" o burro da fazenda. Aquele burro ficou no meio dos nove burros [da tropa], e os burros tudo dando nele. Aí teve que voltar distância longe pra trás. Esse foi um curioso que ficou marcado na história.
O que é família para o senhor
Zé Mira - Tudo. Família pra mim é tudo. O que eles sentem na vida deles eu sinto na minha.
Lugar preferido:
Zé Mira - Ah! Hoje eu adoro o pedacinho meu em Jambeiro. "Donde" nasceram as crianças, cresceram. E em segundo lugar, São José dos Campos, que me recebeu de braços abertos.
O que o trabalho representa para o senhor?
Zé Mira - É a minha paixão. Eu, se for pra deixar de trabalhar por causa da viola, eu deixo a viola por causa da enxada.
Qual é o segredo de ter tanta energia?
Zé Mira - É um castigo, é um castigo.
O que o senhor pensa da morte?
Zé Mira - "Óia", a morte é ... a gente tem que pensar nela todo dia, que pra semente ninguém fica. "Antão", é pedir as graça de Deus, que dê uma boa hora pra gente.
Qual é sua maior riqueza?
Zé Mira - É essa que Deus tá me dando, de tá junto com a minha família, junto com os meus amigos, cantando, trabalhando, cuidando das minhas coisas.
O que o senhor faz no seu tempo livre?
Zé Mira - Andar. Porque hoje eu vivo mais na estrada do que dentro de casa, né. Venho de lá [Jambeiro], aqui [São José], saio daqui, chego lá e vou lá pra roça a pé, que são dois quilômetros e meio. Chego lá e já vou subindo o morro a pé.
De onde vem a sabedoria do caipira?
Zé Mira - A sabedoria sai das histórias de um caipira com o outro, né, porque um conta uma história, o outro conta outra. Porque eu não podia ver gente idosa que já ia ficar perto pra conversar.
Qual a importância de preservar as tradições do Vale do Paraíba?
Zé Mira - É muito importante. Eu tô orgulhoso com isso [a Casa de Cultura Zé Mira] porque a gente tá vendo o interesse do jovem hoje. Porque a cultura foi rodando, rodando, foi parar no fundo do poço.
Fotos: Adriano Pereira
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