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Domingo, 26 de Junho de 2005
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Alma de tropeiro

Aos 80 anos e com agenda de shows recheada, o músico Zé Mira é um exemplo de amor e dedicação à cultura caipira

Fernanda Guerra
São José dos Campos

"Dá licença pra nóis, sinhô, sinhá. Nós queremos chegá, sinhô, sinhá". O Moçambique soa doce na voz de Zé Mira. Considerado o último tropeiro vivo, José Alves de Mira, 80 anos, é um verdadeiro ícone da cultura caipira.

Nascido em Cristina, no sul de Minas Gerais, Zé Mira mora em Jambeiro desde 1948, quando veio para o Estado de São Paulo atrás de escolas e oportunidades para os filhos que ainda iriam nascer.

Hoje, pai de 9 filhos, avô de 17 netos e com 5 bisnetos, o tropeiro está à frente da casa de cultura que leva seu nome, em São José dos Campos, onde luta para preservar as danças e a música do homem da terra, como o jongo, moçambique, congada, cateretê e catira.

Dono de uma fala mansa, riso aberto e conversa fácil, Zé Mira concedeu entrevista ao ValeParaibano, em que conta um pouco de sua vida. O resultado dessa prosa, você lê a seguir.

O que é ser caipira?

Zé Mira - Ah, ser caipira é que nem no tempo de "dantes" que cada um tinha sua casa, cada um se cuidava, cada um vestia aquilo que Deus dava, né. E era o trabalho, era a amizade. O homem caipira que sabe respeitar o caipirismo dele vive bem.

Conte um fato curioso que aconteceu em sua vida.

Zé Mira - Tem um que "peguemos" a tropa pra sair e quando foi de madrugada, vimos que "peguemos" o burro errado. "Peguemos" o burro da fazenda. Aquele burro ficou no meio dos nove burros [da tropa], e os burros tudo dando nele. Aí teve que voltar distância longe pra trás. Esse foi um curioso que ficou marcado na história.

O que é família para o senhor

Zé Mira - Tudo. Família pra mim é tudo. O que eles sentem na vida deles eu sinto na minha.

Lugar preferido:

Zé Mira - Ah! Hoje eu adoro o pedacinho meu em Jambeiro. "Donde" nasceram as crianças, cresceram. E em segundo lugar, São José dos Campos, que me recebeu de braços abertos.

O que o trabalho representa para o senhor?

Zé Mira - É a minha paixão. Eu, se for pra deixar de trabalhar por causa da viola, eu deixo a viola por causa da enxada.

Qual é o segredo de ter tanta energia?

Zé Mira - É um castigo, é um castigo.

O que o senhor pensa da morte?

Zé Mira - "Óia", a morte é ... a gente tem que pensar nela todo dia, que pra semente ninguém fica. "Antão", é pedir as graça de Deus, que dê uma boa hora pra gente.

Qual é sua maior riqueza?

Zé Mira - É essa que Deus tá me dando, de tá junto com a minha família, junto com os meus amigos, cantando, trabalhando, cuidando das minhas coisas.

O que o senhor faz no seu tempo livre?

Zé Mira - Andar. Porque hoje eu vivo mais na estrada do que dentro de casa, né. Venho de lá [Jambeiro], aqui [São José], saio daqui, chego lá e vou lá pra roça a pé, que são dois quilômetros e meio. Chego lá e já vou subindo o morro a pé.

De onde vem a sabedoria do caipira?

Zé Mira - A sabedoria sai das histórias de um caipira com o outro, né, porque um conta uma história, o outro conta outra. Porque eu não podia ver gente idosa que já ia ficar perto pra conversar.

Qual a importância de preservar as tradições do Vale do Paraíba?

Zé Mira - É muito importante. Eu tô orgulhoso com isso [a Casa de Cultura Zé Mira] porque a gente tá vendo o interesse do jovem hoje. Porque a cultura foi rodando, rodando, foi parar no fundo do poço.

Fotos: Adriano Pereira
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