Peito Aberto
Admitindo-se, por hipótese, que as investigações venham a comprovar que realmente dirigentes do Partido dos Trabalhadores faziam pagamentos mensais a deputados federais do PP e do PL para que votassem a favor de matérias de interesse do governo, o presidente Lula não teria responsabilidade nenhuma na falcatrua?
Aníbal Monteiro de Castro, advogado:
Partindo da premissa de que ninguém é culpado até que se prove o contrário, não há que se julgar o presidente antecipadamente, mesmo diante das comprovações dos referidos pagamentos. Mas, por outro lado, quem governa um país tem que, no mínimo, saber o que faz cada um dos seus assessores diretos, por ele próprio indicados, supondo-se serem homens de sua direta confiança. Alegar simplesmente que desconhecia tais falcatruas, ou que não teria sido informado a respeito do assunto, é de longe a mais descabida e simplória das saídas para um chefe de governo, que há mais de 30 anos acompanha participativamente a política deste país. Portanto, se apurados e comprovados tais pagamentos, dificilmente escapará ileso qualquer membro que tenha tido participação ativa ou passiva nos atos ilícitos, incluindo-se aí, infelizmente, o presidente Lula. Infelizmente, sim, porque as manchetes mundiais tratarão desse assunto, colocando mais uma vez o Brasil em descrédito, apesar de todo o esforço que os brasileiros fazem para se sobressair em tecnologia, em esportes, exportando talentos em diversas outras atividades.
Nesse impasse, a responsabilidade torna-se inegável, ele é o presidente da nação, é o responsável, mesmo que temporariamente, pelos destinos dos milhões de brasileiros que serão envolvidos em mais um lamentável episódio produzido e dirigido pela ganância dos maus políticos, das más alianças para se chegar ao topo do poder. Confirmando-se os atos praticados por ação ou por omissão, todos serão facilmente enquadrados, quer na Carta Magna, quer na lei 8.429, de 2 de junho de 1992, que trata da improbidade administrativa.
Cláudio Nicolini, jornalista da Rádio e TV Band Vale:
É uma encruzilhada para Lula. Caso se confirmem as denúncias, se o presidente afirmar que não sabia de nada será o mesmo que assinar um atestado de "vaquinha de presépio". O desprestígio para Lula seria imenso. Por outro lado, admitir que sabia será o fim de sua carreira política e do mandato.
O problema é que as denúncias de "mensalão" envolvem pessoas muito próximas do presidente Luís Inácio, pessoas de sua estreita confiança, como José Dirceu e José Genoíno. A existência confirmada da corrupção no governo federal atingiria o berço do PT, e não vejo formas de blindagem de seu maior expoente, o presidente da República.
Se houver comprovação, não acredito que tudo acontecesse sem o aval de Lula, mesmo que não fosse em relação à totalidade. Nessa hipótese, ficaria difícil acreditar que Lula não soubesse como era obtida a maioria no Congresso para aprovação de matérias de interesse do governo.
Se houver a confirmação das denúncias, o desfecho da história ficará bem parecido com um filme de horror.
Francisco de Assis Rimoli, professor:
Na pergunta se denomina falcatrua ao pagamento mensal para votos a favor do governo. Haveria diferença se o pagamento fosse integral e adiantado? Falcatrua também! Com o mesmo fim distribuíram-se cargos e verbas para os apaniguados. São falcatruas, sem dúvida, só que mais antigas e não se transportam em malas de dinheiro e, algumas, causam maiores danos.
As falcatruas de pagamento integral e adiantado, pelo menos muitas, são de conhecimento e de responsabilidade do senhor presidente, levam sua assinatura nomeações que visam conservar e prolongar o poder.
Mas a pergunta é sobre o desconhecimento da falcatrua mensal. Não foi informado? Deveria se informar, é obrigação do dirigente, a ele não é permitido imprudência nem negligência, muito menos imperícia.
Aquele açodamento em boicotar instalação de CPI, em pôr obstáculo a averiguações, não deveria alertar qualquer um, ainda que estivesse na China ou mais para lá ou mais para cá?
Se provarem que foi impedido de conhecer, a responsabilidade apenas se atenua. Sua afirmação pura e simples terá sabor político, sempre se desconfiará dela. Ainda que acatada, restará a responsabilidade de ter aceitado, sustentado e fomentado comportamento partidário acima do interesse nacional.
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