Crime Organizado
Rota do tráfico de mulheres inclui o Vale
Garotas da região são seduzidas por emprego no exterior e acabam em casas de prostituição
Guilhermo Codazzi da Costa
São José dos Campos
Enquanto a luz ilumina a dança frenética na pista da pequena boate, uma jovem brasileira identificada apenas como M., cerca de 20 anos, tenta atrair a atenção de algum cliente em mais uma noite quente na capital espanhola. Do lado de fora da boate, dividindo espaço com o neon de Madrid, um cartaz anuncia: `Aqui temos garotas brasileiras'.
Atraída por uma proposta de emprego "irrecusável", em uma grande empresa estrangeira, com direito a estabilidade e um salário invejável, a garota decidiu deixar para trás a vida que tinha em São José dos Campos e apostou no sonho de ter uma vida melhor.
Porém, chegando ao seu destino, M. viu seus sonhos tranformarem-se em pesadelos. O tão almejado emprego, não existia. Distante da família e sem conhecer a língua de sua `nova' pátria, M., assim como centenas de garotas brasileiras, acabou se prostituindo.
O ValeParaibano não revelou o nome da garota para não causar-lhe constrangimento, mas a história de M. é real e está mais próxima do que se pode imaginar.
De acordo com a Polícia Federal e dados de uma pesquisa realizada em 2002 pelo Cecria (Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes), o Vale e o Litoral Norte estão na rota das quadrilhas especializadas no tráfico de mulheres e crianças para fins de exploração sexual.
"Em primeiro lugar, a região está incluída nesta rota em razão de sua posição geográfica, entre São Paulo e Rio de Janeiro, cidades com os mais importantes aeroportos do país. A maioria das mulheres traficadas para o exterior vai pelo eixo Rio-São Paulo", afirmou o coordenador da pesquisa na região sudeste, Welinton Pereira da Silva, da ONG Pacto São Paulo.
Devido ao grande número de turistas, o Litoral Norte acaba atraindo garotas da região, aliciadas para a exploração sexual e que atuam em boates na cidade. "O litoral é muito atrativo para esse tipo de tráfico, já que tem muitos turistas", disse.
DUTRA - Silva afirmou que outro fator determinante na escolha do Vale para o tráfico de mulheres é a via Dutra, que une as capitais paulista e fluminense. Diariamente, 500 mil veículos trafegam pela rodovia.
"A Dutra é um dos principais corredores utilizados pelo tráfico. Antes de irem para o exterior, a maioria das mulheres costuma sair de cidades menores e vão para os grandes centros. É comum ter boates à beira da rodovia. Depois são aliciadas e vão para o exterior", disse.
QUADRILHAS - Para atrair as garotas, as quadrilhas utilizam anúnicios falsos de emprego no exterior e também uma `rede' de contatos. De acordo com Silva, as mulheres brasileiras chegam a ser encomendadas por donos de boates estrangeiros.
"Um dono de boate no exterior pede ao seu contato no Brasil que consiga uma garota com determinadas características. É como se fosse uma mercadoria. Na maioria das vezes, elas são mantidas como semi-escravas. Ela nunca consegue pagar a dívida, sua passagem de avião e custos de sua permanência, e acaba sendo obrigada a se prostituir."
ROTAS - Entre as rotas destacadas pela pesquisa, a BR-116 seria utilizada para levar garotas de São Paulo para a cidade de Camboriú-SC e adolescentes de Caxias do Sul-RS para a capital paulista.
A Dutra é passagem obrigatória para as garotas das regiões Sul, Centro Oeste e sul de Minas Gerais que são levadas para se prostituir em boates paulistanas.
No exterior, os principais destinos dos garotas brasileiras traficadas para o exterior são a Israel, Japão e Europa, principalmente Espanha e Portugal.
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