Análise
O presidente estava certo
Murilo Murça de Carvalho
Correspondente em Brasília
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava certo, ontem, em São Caetano do Sul, ao atribuir boa parte da crise por que passa seu governo às eleições deste ano e de 2006. Mas não pode jogar a responsabilidade somente na oposição. O papel natural desta é desgastar o governo, com críticas e manobras, sempre de olho nas próximas eleições, embora sem perder de vista o compromisso com a governabilidade.
Desgaste é aceitável, tentativa de desestabilização, não. Até o momento, a oposição ainda não está gritando "Fora Lula", como fez o PT em relação a Fernando Henrique Cardoso.
As próximas eleições estão, sim, influindo no clima político, uma vez que o PT não escondeu sua pretensão de vencer nas principais capitais do país, além de quadruplicar o número de prefeituras controladas pelo partido. E tem trabalhado nesse sentido, o que é antagônico ao esforço do presidente Lula na construção de uma ampla base parlamentar que lhe condições de aprovar os projetos que considera imprescindíveis para o sucesso de sua gestão.
Os votos de que Lula precisa agora para governar estão no Congresso Nacional. Mas os votos que elegem os senadores e deputados estão nos municípios, onde já se deu a partida para as eleições deste ano. O resultado das eleições municipais será importante na formação da base eleitoral dos parlamentares que, em 2006, vão concorrer aos cargos de deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da república.
Daí a necessidade de extrema competência na articulação política do governo, de modo a manter o equilíbrio precário existente entre interesses conflitantes. E, certamente, essa articulação está abalada a partir do escândalo Waldomiro Diniz que, neguem ou não, atingiu em cheio o chefe do Gabinete Civil, José Dirceu. Além de armar o time, defender e atacar, o "capitão" José Dirceu ainda tem que se preocupar com as pedradas da torcida.
Poder não se dá, se toma, diz a máxima política. E José Dirceu, político em tempo integral, preferiu lutar por permanecer como superministro, ainda que machucado. O seu deslocamento para a área de gestão, feito pelo presidente Lula pouco antes do 13 de fevereiro em que explodiu o escândalo Waldomiro, acabou não acontecendo de fato. Dirceu estava muito mais preocupado em se defender. Com isso, a administração pública sofreu uma paralisia em momento estratégico. E mais, ele não desencarnou do posto de coordenação política com o Congresso, que, no papel, deveria ter passado para Aldo Rebelo. Nem bem Dirceu tem feito isso, como Rebelo até por ser do minúsculo PcdoB consegue se firmar como coordenador.
O presidente estava certo, sim, ao dizer que as eleições estão embalando a crise por que passa seu governo. Mas, antes de jogar a conta só para a oposição, deve observar a disputa surda que ocorre entre seus próprios aliados, todos de olho em 2006 e, particularmente, na sucessão do governador Geraldo Alkmim, de São Paulo. Estão no páreo e dando cotoveladas, o líder do governo no Senado, senador Aloízio Mercadante (PT/SP) e o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT/SP) e o presidente do PT José Genoíno. Não se pode descartar outra dupla de antagonistas, o ministro da Fazenda Antonio Palocci e José Dirceu, além do casal Suplicy, o senador Eduardo e a prefeita de São Paulo, Marta.
São muitas as vaidades e as pretensões a serem administradas por um Lula só. Além dessas disputas pessoais, em que cada pretendente busca formar sua base de apoio, rachando a unidade de apoio, há os interesses grupais ou partidários. Para todos, no entanto, é indispensável que o governo comece a liberar as verbas para as prefeituras para que cada qual apareça nas suas bases eleitorais com ambulância nova, posto de saúde, quadra de esporte, ruas e vias asfaltadas, saneamento, escolas.
A demora na liberação escassa de recursos apenas 0,8% dos investimentos previstos no Orçamento de 2004 foram executados está levando parlamentares e partidos a endurecerem o jogo e a valorizarem seus passes.
Como o governo só pode contratar com as prefeituras nos próximos três meses devido à legislação eleitoral, o tempo vai se escoando e tornando ainda mais difícil a divisão salomônica dos recursos, de modo a não provocar novos rachas e ampliar a crise.
Se o governo conseguir com que a temperatura não se eleve em excesso até o final de junho, poderá respirar aliviado, pois as campanhas eleitorais vão parar o, esvaziando consideravelmente este importante palanque de ataque ao Executivo. O problema vai ser administrar a crise até lá.ruplicar o número de prefeituras controladas pelo partido.
Murilo Murça de Carvalho escreve de Brasília para o ValeParaibano
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