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Quarta-feira, 30 de Julho de 2003
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Perigo à Vista

Edílson de Paula Andrade

O rio Paraíba pode secar?

O rio Paraiba é formado pela junção dos rios Paraitinga e Paraibuna, na altura da cidade de Paraibuna,constituindo uma represa que, quando está com seu nível máximo, é 6 vezes o volume das águas da baia da Guanabara. As águas dessa represa, somadas as das represas de Santa Branca, Jaguari e Funil são responsáveis pela garantia do abastecimento de 14 milhões de pessoas sendo 8,5 milhões na região metropolitana do Rio de Janeiro, mais 2 milhões aqui no trecho paulista e 3 milhões no restante do estado do Rio e Minas Gerais.

Esse conjunto de represas foi construído com o objetivo de garantir o múltiplo uso das águas viabilizando o abastecimento público, a produção agrícola, a energia, diluição de esgotos, abastecimento industrial etc de uma região que é responsável pela expressiva marca de 12% do produto interno bruto brasileiro. O desenvolvimento acelerado nas últimas décadas, no eixo Rio- São Paulo- Juiz de Fora, só foi possível pela disponibilidade de água.

Voltemos a discussão que interessa. Existe água para suprir as demandas atuais e futuras?

Nos anos de 94 e 95 ocorreram chuvas intensas nas cabeceiras dos rios Paraitinga e Paraibuna, com intensidade tal que sua ocorrência é de 10 em 10 mil anos. Na ocasião o reservatório formado por aqueles rios chegou ao seu nível máximo.Ocorre que de 96 até hoje as represas não enchem mais, e pior, ano após ano o nível delas tem abaixado.

Há dois anos o Ceivap convocou todos os envolvidos com a operação desses reservatórios para estabelecer mudanças urgentes que fossem capazes de tranqüilizar os agentes econômicos, a população e, especialmente, aqueles municípios do entorno dos lagos que dependem economicamente das represas.

De imediato a Agência Nacional de Águas, responsável pela regulação, em conjunto com o ONS- operador nacional do sistema elétrico do país, determinou que o rio Paraiba ôcedesseõ menos água para o rio Guandu, no Rio de Janeiro. Ao invés de bombear 160 m3/segundo passou para 130 e depois para 119m3/seg., ou seja, uma redução de 25% em relação a vazão inicial. Essa sobra seria armazenada nas cabeceiras do Paraíba em São Paulo. Tudo isso foi feito com muita transparência, mas o resultado não foi o esperado, e os níveis das represas estão piores do que o mesmo período de anos anteriores.

Um dos fatores que prejudicaram a estratégia foi a descarga de água em Funil determinada pela ANA, para diluir a poluição causada pelo desastre da Cataguases de papel. Ainda que a medida tenha sido necessária, o reservatório de Funil perdeu preciosos 12% do seu volume, que vieram a fazer falta.

Curiosamente achávamos que o maior problema fosse o esgoto doméstico que chega ao nosso Paraíba sem qualquer tratamento, acabando com os peixes, transtornando os pescadores e os ambientalistas. Foi montada toda uma estratégia para enfrentar esse inimigo, orientando investimentos para tratar os esgotos e recuperar a qualidade de água. Isto é essencial, mas é necessário urgentemente achar solução para evitar a escassez.

Estamos gastando mais do que a chuva repõe, portanto a tendência, no curtíssimo prazo, é secar as represas e por conseqüência o próprio rio Paraíba.Para que isso seja evitado é preciso pensar em soluções combinadas. De um lado medidas urgentes para incentivar a economia de água e de outro o aumento da oferta. A economia tem que vir acompanhada de um programa de uso racional voltado para os usuários e a população, porém a cobrança pelo uso da água pode ser um instrumento mais incisivo, e para isso será necessário rever os preços para o consumo.

O aumento da oferta é mais complicado, pois implica na construção de obras hidráulicas cujos custos financeiro e ambiental são elevadíssimos, mas é necessário discuti-las seriamente. Uma política inadiável é a preservação das nascentes e olhos dágua, que no médio prazo trarão grandes benefícios.

Enfim, caso não haja um verdadeiro dilúvio nas cabeceiras dos rios Paraitinga e Paraibuna, teremos que racionalizar pra valer o uso, senão o rio Paraíba vai secar.

Edílson de Paula Andrade é geólogo do DAEE de Taubaté, pós-graduado em Engenharia de Recursos Hídricos e ex secretário-executivo do Ceivap

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