Perigo no Mar
Pescadores vivem da "caça" de tubarões
Profissionais do Litoral Norte ganham a vida pescando tubarões para venda da carne e cartilagem; quilo chega a R$ 20
Cléa Santos
São Sebastião
"Caçar" tubarões no Litoral Norte é a principal atividade de muitos pescadores que sobrevivem com a venda da carne e da barbatana (cartilagem) do peixe, considerado o mais perigoso animal marinho.
Profissionais ouvidos pelo ValeParaibano afirmaram que a busca por um tubarão de grande porte e de qualidade pode levar cerca de 15 dias.
Eles disseram não ter ficado surpresos com o suposto ataque de tubarão que matou o turista André Luís Lopes, 20 anos, no último dia 20, em Maresias, na costa sul de São Sebastião (leia texto abaixo).
Para o pescador César Augusto Conceição, 27 anos, o peixe que recebeu o nome popular de cação é o produto mais cobiçado do mercado. O valor da carne pode chegar em torno de R$ 20 o quilo e a barbatana de cerca de R$ 150.
APELIDO - "Apelidamos o tubarão de cação para não assustar o cliente no momento da venda. O diferencial é que o tubarão tem um tamanho que pode atingir mais de 5 metros e a média do cação é de cerca 3 metros", disse.
Ele afirmou que na região há muitos tubarões, inclusive da espécie tigre, considerado uma das mais perigosas.
"No litoral têm muitos peixes de vários tamanhos, tanto filhotes como adultos. Os pontos acessíveis para pesca são entre Caraguatatuba, São Sebastião e a divisa com Santos (SP)", disse.
O pescador Humberto Junior, 28 anos, disse que é comum encontrar tubarões entre o meses de setembro a janeiro, período em que os peixes mais procuram alimentos. Durante as viagens são pescados cerca de 40 cações pesando em média 50 kg.
"Ficamos em uma distância de cerca de 10 quilômetros das praias. O tubarão se alimenta de vários peixes", disse.
Para os pescadores, possuir uma mandíbula de tubarão é a única forma do profissional provar a sua coragem e conquista no mar (leia texto nesta página).
ATAQUE - Para Conceição, a mordida de um tubarão pode ser fatal. "Durante uma das viagens, um tubarão que tinha sido caçado estava no barco aparentemente morto. Um pescador passou perto, o peixe virou atacando a sua perna provocando um grave ferimento", disse.
Ele afirmou que antes de começar a limpeza do tubarão é necessário verificar se realmente está morto batendo com um pedaço de madeira na cabeça do peixe.
O pescador Benedito Antônio Santos, 58 anos, disse que foi atacado por um tubarão quando estava tirando o peixe da rede de pesca.
"O tubarão estava enroscado na rede dentro da água. Chamei outros pescadores e seguramos a rede no momento em que o peixe virou e atingiu o meu braço", disse o pescador.
Santos afirmou que, devido ao ferimento, ele correu o risco de ter o braço amputado. "A lesão causada pela mordida do tubarão foi grave que quase perdi parte do braço. Conheço várias pessoas que também tiveram sérios ferimentos e perderam membros do corpo", disse.
CAÇÃO - Para o especialista em acidentes com animais marinhos Vidal Junior, da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo), de Botucatu (SP), o cação, popularmente conhecido pelos pescadores, é um tubarão com um tamanho menor.
"Não existe o peixe cação. Esse animal marinho tem um tamanho menor que pode variar em até três metros. Ele possui uma característica agressiva, tem uma alimentação variada, sendo o único animal marinho que ataca ao homem", disse.
O especialista afirmou que existem tubarões de pequeno porte no litoral paulista, mas dificilmente ficam próximos as orlas das praias.
"É comum o pescador encontrar essa espécie de tubarão no litoral que ficam enroscados nas redes. A retirada do animal necessita cuidado, pois ele pode causar sérios ferimentos", disse.
Jules Verne
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