Crise Financeira
Dólar a R$ 3,88 é novo recorde do Real
Moeda sobe mais 3,19% e fecha semana com alta de 14%, no mês já soma 29%; Bolsa cai 5,25%, 2ª maior queda do ano
São Paulo (AF)
O dólar e o risco Brasil encerraram a semana em níveis recordes. A moeda americana subiu 3,19% ontem, para R$ 3,88, a maior cotação do real. Nesta semana, o dólar subiu 14%; no mês, 29%.
O recorde de ontem coloca a cotação do real em dólar abaixo do peso argentino, moeda depreciada por um moratória, uma grave crise política e econômica e a falta de apoio financeiro de organismos internacionais. O o peso argentino é cotado a US$ 0,2717, enquanto o real é cotado a US$ 0,2577.
O risco-país subiu 9,7%, para 2.440 pontos, nível mais alto desde 1998, ano da crise russa. A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) fechou em queda de 5,25%.
Os C-Bonds, títulos da dívida externa brasileira, derreteram 5,5% e fecharam a US$ 0,4881.
ELEIÇÕES - A proximidade das eleições brasileiras e fatores específicos de mercado pressionaram os indicadores durante toda a semana. Segundo os operadores, o mercado começou a movimentar os preços para adequá-los a uma possível vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições. A hipótese passou a ser considerada após a divulgação de pesquisa Datafolha, no fim de semana, que apurou a subida do candidato de oposição.
O mercado continuou a especular ontem com o resultado de próxima sondagem do instituto. Duas versões circularam pelas mesas de operações. Uma delas apontava a vitória de Lula já no primeiro turno; a outra sinalizava um segundo turno entre o petista e o candidato do mercado, José Serra (PSDB). A pesquisa sequer havia sido concluída enquanto os números circulavam.
Isso indica o forte grau de especulação do mercado. Mas, segundo os analistas, o dólar a R$ 3,88 ainda não espelha a possibilidade de Lula vencer no primeiro turno.
"Muita gente ainda não acredita que Lula vence. Se a pesquisa voltar a sinalizar essa vitória, o dólar vai subir ainda mais", diz Helio Osaki, analista da Finambras.
A rolagem de títulos públicos atrelados à variação cambial também continua ampliando a especulação do mercado. O governo iniciou ontem a renovação de 70% do vencimento de US$ 1,25 bilhão em dívida cambial, na terça-feira. Renovou 21% dos papéis com resgate em 2005, pagando taxas próximas aos 30%. Para os títulos com resgate neste ano, a demanda foi baixa e as taxas pedidas, altas. Logo, o BC não concluiu a operação. Como o mercado já prevê que o lote não será rolado totalmente, por falta de demanda, as tesourarias dos bancos começam a pressionar a cotação, uma vez que quanto mais alto o dólar, maior o ganho de quem irá receber pelos papéis.
"A princípio, não vejo nada que possa derrubar esse câmbio nos próximos dias. Não há razão para o câmbio não abrir fortemente pressionado [na segunda]", afirma Sérgio Machado, diretor de tesouraria do banco Fator. "Na véspera da eleição, não é surpresa a volatilidade que tem caracterizado o mercado cambial. O que surpreende é a altura [que a cotação do dólar] já chegou", diz.
O governo também rolou ontem US$ 150 milhões de US$ 350 milhões em linhas externas que vencem na semana que vem.
BOLSA - A Bovespa fechou em queda de 5,25%. O Ibovespa (que concentra as 56 ações mais negociadas) teve ontem a segunda maior queda do ano. Caiu 5,25% e terminou aos 8.715 pontos, o menor nível desde 25 de fevereiro de 1999, quando finalizou em 8.674 pontos.
O Ibovespa não encerrava um pregão abaixo do patamar de 9.000 pontos, desde o dia 26 de fevereiro de 1999, quando encerrou em 8.910 pontos.
Com esse resultado, o índice fecha a semana com perdas acumuladas de 9,07%. No "setembro negro", a baixa já é de 16,05%. No ano, amarga desvalorização de 35,81%.
EUA - Na Bolsa de Nova York, o índice Dow Jones recuou 3,7%, fechando aos 7.701,45 pontos. No ano, o indicador acumula queda de 24%. Na Bolsa eletrônica Nasdaq --que reúne as principais empresas de tecnologia-- o recuo foi de 1,84%, para os 1.199,08 pontos. No acumulado do ano, as perdas do principal indicador dessa Bolsa --o Nasdaq Composite-- somam 39,6%.
Entre as principais Bolsas da Europa, apenas a de Londres fechou em alta, subiu 1,47%.
Marcos Mendes/AE
Marcelo Alves/Futura Press
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