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Domingo, 14 de Outubro de 2001
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Saudosas traquinagens

Romeu Evaristo vive o eterno Saci-Pererê

Ator ainda conserva o gorro vermelho e o cachimbo que fumava de mentira

Fernando Miragaya
Rio de Janeiro/TV Press

A indefectível risada é a mesma que virou símbolo do Saci na primeira versão televisiva do "Sítio do Pica-Pau Amarelo". No entanto, a carapuça vermelha e o cachimbo deram lugar a fios brancos que insistem em invadir o cabelo e o cavanhaque de Romeu Evaristo.

Aos 45 anos, o ator lembra com carinho do Saci Pererê, personagem que o deixou em evidência na tevê, e deixa transparecer as saudades das travessuras do "coisa ruim". "Gostava quando ele amarrava a Cuca e quando amarrava o rabo dos cavalos do Sítio", recorda o ator, atualmente no humorístico "Zorra Total".

Romeu virou Saci aos 17 anos. O ano era 1975 e ele trabalhava como ator em "João da Silva", uma novela educacional da TV Educativa do Rio, onde era editado o "Sítio". O ator, inclusive, chegou a fazer uma participação em um dos episódios do infantil.

Depois, entrou para a faculdade de Jornalismo e começou a trabalhar como operador de telecine - uma espécie de projetista dos filmes e seriados que a TVE veiculava. Um dia, porém, Romeu literalmente dormiu no ponto. "Coloquei o 'O Gordo e Magro', recostei a cadeira e dormi. O episódio acabou e a emissora ficou sem programa no ar", diverte-se.

Só que Romeu era ator e aquela música do "Sítio" na voz de Gilberto Gil já ficava ecoando na cabeça dele. "Era louco para trabalhar no programa", garante. Ao mesmo tempo, estava chegando a hora de a equipe do infantil gravar o episódio "A Cuca Vem Pegar", onde pela primeira vez apareceria o Saci. Convocaram Genival dos Santos, um rapaz de uma perna só que não era ator e não conseguiu decorar o texto. Os diretores Geraldo Casé e Paulo Grizolli, então, lembraram do menino franzino com jeito de moleque que fazia "João da Silva".

Quando eles viram Romeu pessoalmente, não tiveram dúvida: ali estava o Saci. "Me deram 13 capítulos na hora", lembra - Genival acabou se tornando dublê do Saci, mesma função que exerce na nova versão do "Sítio".

Romeu começou a gravar e logo se identificou com Júlio César e Rosana Garcia, que interpretavam Pedrinho e Narizinho. Até porque, como os três estudavam pela manhã, iam juntos na Kombi da Globo para gravar à tarde. "Nós íamos passando o texto e conversando. Eles eram muito meus amigos", enaltece o ator, ressaltando que todos se davam bem e conviviam como se estivessem realmente no sítio da Dona Benta.

"Além da literatura que o 'Sítio' transmitia, havia uma união muito grande. Por isso passava verdade", valoriza.

Ironicamente, o fato de ter as duas pernas foi um agente complicador para Romeu no início. Como não podia aparecer da cintura para baixo, o ator ficava sentado num banquinho para dialogar com as crianças. "Mas depois elas cresceram mais do que eu. Passei a ficar em pé com o joelho apoiado no banco", lembra.

Outro artifício utilizado por Romeu era com o cachimbo. Como não gostava de fumar, a produção colocava gelo seco para simular uma fumaça. "Tentei até pitar, mas ficava com dor de cabeça", alega.

O cachimbo e as lembranças ele guarda até hoje. Até porque nem as pessoas o deixam esquecer do Saci. Ainda hoje ele é parado nas ruas por causa do personagem e o público se espanta com as duas pernas de Romeu. "Ainda acham que eu não tenho uma perna", diverte-se o ator, que mesmo marcado pelo Saci não acha que ficou rotulado.

No entanto, após o término do "Sítio" o ator ficou apreensivo com essa possibilidade. "Ficava agoniado. Mas depois conversei com o Paulo Gracindo que disse: 'todo grande ator tem de ter um grande personagem'", ressalta.

Curiosamente, Romeu não fez muitas novelas depois do "Sítio". Atuou em "Sinhá Moça", "Hipertensão", "Quatro por Quatro", "Araponga" e "Xica da Silva". No cinema, porém, as portas se abriram mais. Romeu atuou em "Jubiabá", "Rio Babilônia", "Navalha na Carne", "Carlota Joaquina"," Copacabana", entre outros.

Isso sem contar produções estrangeiras: o filme francês "Salutte Champion" e a produção austríaca "Eclipse", que deve filmar em 2002, assim que tiver uma folga de "Zorra Total". "O Saci me ajudou até a fazer filme na Europa", reconhece.

Pedro Paulo Figueiredo/Carta Z
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