Obsolescência Programada

Marcos Martire e João Manuel Maio

Chama-se de obsolescência programada, a expectativa, curta, de duração de algum bem ou produto. Exemplo: um eletrodoméstico produzido hoje, já está programado para durar apenas um determinado número de anos; um computador lançado hoje, em pouquísismo tempo, já terá sido superado por um modelo mais moderno.

Por trás disso tudo existe uma bem elaborada estratégia, que nos leva a acreditar que o bem ou produto que possuímos, não atinge mais as nossas necessidades, induzindo-nos a querer mudá-lo por um mais moderno.

O meu Pentium 2 450, há poucos meses atrás era top-line, e atualmente já está obsoleto, diante do Pentium 2 500, Pentium 3, e por aí vai.

Se antes o videocassete me trazia o cinema para dentro de casa, hoje a propaganda me incita a querer comprar um aparelho de DVD (muito mais caro), cuja imagem seria muito mais acurada.

Mas será que isso é tão importante assim? Afinal, o meu velho aparelho de videocassete, me atende tão bem, assim como o meu, já agora obsoleto, Pentium 2 450.É claro que as empresas precisam lançar novos produtos; disso inclusive dependem os empregos.

A questão é que os produtos que são desenvolvidos atualmente tem uma vida útil muito curta, e o consumidor é levado a acreditar que os novos lançamentos são muito melhores do que os anteriores.

Porém, num passado recente os produtos tinham uma longevidade muito superior aos atuais.

Por exemplo, não é impossível ver ainda circulando, eventualmente um velho Ford bigode em bom estado de conservação; qual dos automóveis produzidos hoje durará 70 anos? Os produtos eram fabricados para durar, e não com a perspectiva de serem mudados em curto prazo.

Esse sentimento consumista de querer sempre o último modelo de carro, computador, eletrodoméstico, acaba gerando em nós, talvez inconscientemente, a expectativa de querer também, dos nossos relacionamentos interpessoais, uma mudança constante.

Desta forma, o nosso fiel e velho amigo, pode tornar-se obsoleto, diante de uma nova amizade, assim como um marido, uma esposa, um filho, um ente querido, uma religião, uma filosofia de vida, um partido político, etc.

Não existe mais compromisso com o durável, apenas com a mudança, com o novo, que nem sempre é obrigatoriamente melhor.

Quem consegue ler todas as revistas que assina, ou assistir a todos os programas da TV a cabo, ou estar sempre em dia com a moda, ou atualizado com o mais último lançamento do que quer que seja?

A necessidade da evolução constante gera em nós um enorme sentimento de frustração uma vez que é quase impossível acompanhar esse ritmo alucinante.

Enquanto não percebermos que devemos valorizar aquilo que já conquistamos ao invés de estarmos sempre buscando aquilo que ainda não possuímos; enquanto almejarmos um horizonte distante, e não apreciarmos a beleza do hoje ao nosso alcance, estaremos sujeitos a viver angustiados, numa eterna busca que jamais nos completará ou saciará, visto que não nos permitiremos degustá-la quando alcançada, pois já um novo objetivo nos seduzirá. E aí, talvez os nossos filhos já tenham crescido, os nossos parceiros envelhecido, os nossos amigos nos esquecido, e o único sentimento que nos reste seja a certeza de que passamos a vida valorizando o passageiro, e tornando obsoleto, o que era realmente essencial.

A necessidade da evolução constante gera um sentimento de frustração


Marcos Martire é representante comercial e João Manuel Maio é médico em São José dos Campos

Vale do Paraíba, sábado, 2 de dezembro de 2000
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