Festivais e festivais.

Eliete Santos

Mais um acerto que reflete o resultado da luta a favor da arte e da cultura: a quarta edição do FID 2000 - Festival Internacional de Dança, que termina amanhã em Belo Horizonte. O objetivo do festival foi trazer ao Brasil o que há de mais novo no estilo da dança contemporânea.

Foram convidados para a mostra diversos trabalhos coreográficos nacionais e internacionais, com destaque para os grupos Gilles Jobin, da Suíça, La Ribot, da Espanha, e Lynda Gadreau, do Canadá.

O festival procurou apresentar trabalhos em dança, gerados através de processos criativos e fundamentados, sobretudo, na evolução, na polêmica e na inquietude de seus artistas. Espelho das transformações que acontecem no mundo hoje.

O que demonstra na prática esta preocupação, é também o seminário que acompanha as oficinas práticas. Aprendendo a pensar: o corpo em movimento, é o título que introduz as palestras, propondo uma abordagem dentre dos eixos balé, improvisação e o sistema de Merce Cunningham.

O evento atingiu um dos seus objetivos quando abriu ao público, gratuitamente, a palestra Os Dualismos de Descartes e o Balé, ministrado pelas filósofas Telma Bichal da UFMG e Zélia Monteiro, de São Paulo.

O conjunto das atividades do FID oxigenam as referências estéticas dos profissionais e redimensionam todo um traçado conceitual relacionado à dança.

Geralmente os festivais de dança no Brasil não adotam com tanta seriedade e determinação o desenvolvimento de diálogos, sobre os quais envolvem a projeção da dança. São aspectos que visam a descoberta, reflexões investigativas e, posteriormente, a dança.

Entretanto, o modelo determinado é, principalmente, o da competição entre os bailarinos amadores e profissionais. Estes festivais estão, prioritariamente, comprometidos em classificar, avaliar e premiar as coreografias.É, praticamente, nulo o exercício das questãos pertinentes à reflexão e ao avanço técnico da dança. Assuntos fundamentais como tragetória, formação do movimento corporal ou, até mesmo, o resultado coreográfico derivado de pensamentos mais indagativos, acabam não interessando a estes festivais.

O IV Festival de Inverno de Dança de São Paulo, que segue até dia 9 no Teatro Arthur de Azevedo, e o Festival de Dança de Joenvile, de 20 a 28 deste mês, são exemplos de festivais competitivos.

Genericamentre, para alguns profissionais que possuem comprovada formação técnica em dança e para a maioria dos que a pesquisam, é duvidosa a real contribuição desses festivais no crescimento completo da atividade no Brasil.

A respeito disso, questiona-se a possibilidade desses festivais estarem desistimulando os bailarinos novatos, que não conseguem pontuação suficiente e não são premiados com troféus.

Será que os festivais que se dedicam exclusivamente aos trabalhos mais tracionais ofecerem mesmo alguma coisa para quem assiste ou estão apenas incentivando o seleto comércio do entretenimento? Não seria possível desenvolver também, num mesmo ambiente, trabalhos coreográficos experimentais?

A dança que existe neste país certamente não está pronta. Segue evoluindo, mesmo que silenciosa, graças a raras pessoas, grupos e companhias que constantemente estão repensando os conceitos, produzindo uma dança solta, mais técnica e criativa que antes.

Cabe a quem pratica saber distinguir o que está sendo visto e analisar seu conteúdo interpretativo, artístico e cultural. Este é o primeiro e mais importante passo dado em direção à compreensão do que é, na verdade, a dança.

Este é primeiro e mais importante passo em direção à compreensão do que é, na verdade, a dança.


Eliete Santos é bailarina e pesquisadora no programa de estudos de pós-graduados em Comunicação e Semiótica da PUC -SP.

Vale do Paraíba, sábado, 8 de julho de 2000
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